Wednesday, June 21, 2006

Dança do Ventre como base para outras danças

Por Aina Kaorner (Salvador-Ba)

Praticamente todas as escolas e universidades de dança utilizam o balé clássico e contemporâneo como base para outras danças, inclusive exigindo a prática dessas modalidades em vestibulares e testes de aptidão.
Lógico que devemos levar em conta que o balé clássico trata-se de uma prática universal e não apenas de uma determinada cultura, como é o caso da Dança do Ventre, Dança Indiana, Dança Flamenca, Dança Afro, dentre outras; mas isso não significa que esta seja a base exclusiva para outras danças.
Por experiência própria conheço ótimas bailarinas clássicas que são incapazes de realizar um camelo, ou até mesmo realizar passos simples de dança de salão.
Muitas vezes a rigidez do balé clássico impede a realização de alguns movimentos da dança e necessita de um trabalho mais elaborado. É claro que isso não é uma regra absoluta; pois também tive muitas alunas praticantes do balé que tiveram muita facilidade na aprendizagem dos movimentos da Dança do Ventre; principalmente por já possuírem um contato mais íntimo com a dança.
Leva muitos anos para uma bailarina se profissionalizar no balé clássico, e seu nível é avaliado periodicamente de acordo com o grau que ela se encontra.
Já na Dança do Ventre não existem essas regras nem avaliações, qualquer pessoa pode praticar e começar a dar aula sem o mínimo de experiência e conhecimento técnico; o que desqualifica as verdadeiras profissionais, e contribui para a solidificação dos muitos mitos que são espalhados em volta dessa arte.
Daí surgem diversos preconceitos, e a Dança do Ventre acaba perdendo o seu verdadeiro valor.
Algumas pesquisas sobre sua origem, denotam vestígios desta arte desde as primeiras civilizações, na qual o Ventre da mulher era comparado a Terra (símbolo da fertilidade). Eram realizados rituais sagrados praticados exclusivamente por mulheres em honra às divindades femininas, como celebração das colheitas e culto à Grande Deusa Mãe.
Isso prova que a Dança do Ventre talvez tenha sido uma das primeiras manifestações artísticas corporais, com imitação de movimentos de animais, como até hoje temos o “pássaro”, a “pantera”, o “camelo”, etc.
Com o passar do tempo esta dança sofreu uma desvirtuação do seu caráter religioso, passando por diversas metamorfoses e incorporando-se a diferentes culturas.
Atualmente muitos preconceitos ainda rondam em torno da Dança do Ventre, e muitas pessoas não reconhecem o seu verdadeiro valor, talvez por também não conhecerem sua história.
Ainda há quem considere a Dança do Ventre apenas como uma dança sensual, funcionando como “passatempo” ou “terapia de auto-estima para mulheres”.
O que essas pessoas não sabem é que a Dança do Ventre tem diversas técnicas que trabalham todas as partes do corpo, da cabeça às articulações; exigindo total coordenação motora, condicionamento físico e alongamento.
A maioria dos seus exercícios são feitos na meia ponta, o que necessita de bastante equilíbrio e postura.
Além da expressão corporal, também deve ser avaliada a expressão facial da bailarina que precisa estar em sintonia absoluta com a música e o sentimento transmitido.
A improvisação também é fundamental principalmente nos solos de percussão, onde o corpo da bailarina precisa estar em total sintonia com as batidas e marcações, levando a uma impressionante educação auditiva e rítmica; sem esquecer da leveza do corpo e principalmente dos braços.
Eu particularmente considero que o trabalho da Dança do Ventre funcione perfeitamente como base para outras danças; se for trabalhada de uma forma perfeitamente técnica e séria.
Assim como todas as outras danças, ela possui o seu valor e merece o seu reconhecimento e respeito.

*Aina Kaorner é professora, bailarina
e coreógrafa de Dança do Ventre.

e-mail: ainakaorner@uol.com.br











Wednesday, June 07, 2006


Bahia no Bolshoi
Dez bailarinos baianos foram classificados para a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. Três deles, Nathiany Ribeiro dos Santos, Nielson da Silva Souza e Sliim Melo ganharam bolsa de estudo integral para a escola. A audição para selecionar alunos aconteceu no dia 3 de junho,também no Teatro Castro Alves, um dia após o espetáculo de gala I Mostra Didática de Dança, que tem como propostas mostrar a técnica desenvolvida nos últimos seis anos na Escola Coreográfica Brasileira do Teatro e formar platéia.
Subiram ao palco para esta apresentação, um quinteto musical, as atrizes Ângela Finardi e a baiana Márcia Andrade e 35 alunos-bailarinos, meninos e meninas na faixa dos 11 a 14 anos, em sua maioria de origem social simples e com apenas três anos de estudo de dança.
A apresentação teve a proposta de levar ao público a fazer um passeio pela história da dança. As atrizes contaram a história e funcionaram como fios condutores que levam à realidade o que esta em cena. A apresentação ressalta aspectos da sua evolução histórica, desde a invenção das sapatilhas à passagem de danças populares para bailados de corte e seu posterior aproveitamento em balés clássicos a exemplo da Polonaise e da Valsa, até chegar aos grandes balés de repertório clássico, que na Mostra são apresentados em pequenos trechos, como o pas-de-trois do balé "O Quebra-nozes” e o pas-de-quatre do balé “O lago dos cisnes”. *
Mariana Gomes, a primeira bailarina brasileira oficialmente contratada pelo Teatro Bolshoi Russo, na história dos 230 anos de tradição, foi aluna da escola, que fica localizada em Joinville, Santa Catarina. A cidade Catarinense foi a primeira no mundo a ter uma filial da Escola Coreográfica de Moscou e foi inaugurada em 2000.

* Trecho transposto do site http://www.escolabolshoi.com.br/index.php

Wednesday, May 17, 2006


Azúcar!
Pelo puro e simples prazer de dançar. No lugar de fechadas coreografias, passos; ao invés de palco, pista. Não há espetáculos, mas bailes até a madrugada. Assim é a dança de salão, que congrega cada vez mais adeptos, sobretudo em Salvador. Algumas casas são específicas para quem se esmera nas escolas, em número crescente da cidade. A pista é como uma bonita competição de dança.
Parece mesmo que se vai o tempo em que dança de salão era tida como “coisa de velho”. Hoje, atraídos pela moda do forró universitário, jovens de todas as idades invadem a pista, arriscando os passos tradicionais, e se aventuram, inclusive, em ritmos como o bolero - normalmente, o preferido entre os senhores.
Entre os estilos, forró (o universitário e o tradicional diga-se), bolero, samba de gafieira, tango argentino, cha cha cha, merengue, lambada e, claro, a salsa. Todos têm uma mesma base nos passos, mas com suas especificidades. A contagem e a base dos pés (o direito sempre para trás e o esquerdo para frente) é quase sempre a mesma, mas os giros, os rodopios, os trimiliques dos ombros, bem, aí varia por dança e vai também ao gosto do freguês.
A salsa tem uma beleza única e aqui na cidade tem tomado um espaço considerável. O ritmo difundido por toda a América Latina e notoriamente no norte do país parece ter chegado com força em terras do samba de roda há mais ou menos 20 anos... Bem, pelo menos é o que diz o compositor baiano Gerônimo. Ele foi um dos precursores do ritmo na música genuinamente baiana – fazendo uma fusão com influências afro).
De qualquer maneira, no tocante à dança, todo mundo por aqui, no mais das vezes, sempre dançou salsa, merengue, rumba,forró o que for, como lambada... E essa é a grande diferença. Bandas como Mambolada e Salsalitro mandaram há cerca de 5 anos, uma leitura mais pop da salsa, e acabou atigindo o grande público baiano. Se a grande onda passou, o ritmo persiste no circuito mais alternativo, com bons grupos, como o Tropicola, que tem alguns peruanos entre os seus integrantes.
Mais importante do que aprender a dançar é dançar, e as salsas dos sábados no bar Alphorria, no Santo Antônio, prometem. Quem não tem, digamos, a técnica, sempre vai encontrar quem lhe queria ensinar uns passinhos basicos, e no mais é curtir o som, que inclusive é muito bom, com o corpo.

Onde sair para dançar
Segunda-feira
Bar lugá legal
Salsa com a banda Bus Latino a partir das 22:30. Ingressos: R$ 5,00. Consumação: R$ 5,00.Rua Frei Vicente, 7 – Pelourinho – Salvador (71) 321-1616
Quarta-Feira
Bar lugálegal
Salsa com a banda Vizinhança Latina a partir das 22:00.Ingresso: R$ 5,00.Rua Frei Vicente, 7 – Pelourinho – Salvador(71) 321-1616
Sexta-feira
Bar Salsa's
Salsa com Chocolate e seus Amigos a partir das 22:30.PitubaSábadoAlphorria
Salsa com Tropicola a partir das 22:00.Rua Direita do Santo Antônio, 43 - Pelourinho - Salvador
Domingo
Cantina da Lua
Salsa com Azúcar Improviso Latino gratuita a partir das 15:00 no Bar Cantina da Lua aos domingos.Largo do Terreiro de Jesus – Pelourinho - Salvador

Wednesday, May 10, 2006



“Dancei desde o momento em que aprendi a ficar de pé. Dancei toda a minha vida. O homem, a humanidade, o mundo inteiro precisa dançar. Assim já foi, e assim há de ser sempre. É de todo inútil haver gente que a isso se queira contrapor sem compreender que a dança é uma necessidade natural que nos foi dada pela natureza... Et voilá tout” Isadora Duncan

“O maior mito das danças de todos os tempos”, assim o biógrafo Peter Kurth se refere a Isadora Duncan. Não dá para falar em dança moderna sem esta americana, a fundadora desse estilo livre de se dançar, contra os cânones rígidos, criteriosos, e, digamos, “travados” do balé clássico.
Ela é uma dessas artistas cujo trabalho, talvez justamente por ser arte, não se separa da própria vida. E em matéria de vida pessoal, assim como nos palcos, o que se vê em Ducan é, em alguns aspectos, um tom de tragédia Grega.
Foi retomando elementos da cultura grega, sempre com ideais de libertação e espontaneidade nos movimentos do corpo, do belo e do natural, que Isadora montou sua Escola de Dança na ex União Soviética, quando já tinha alcançado a consagração na Europa. Sobre os quartos com ratos em que dormiu na antiga União Soviética, a falta de infra-estrutura de sua escola no palácio Baçachova, escreveu, mas não exatamente em tom de reclamação pessoal, afinal tinha consciência de quantos russos passavam fome na mesma ocasião.
Os pés descalços, a liberdade de se ter apenas túnicas cobre o corpo – em oposição aos corpetes do balé, eram alguns dos elementos que caracterizavam sua dança. Dizia sempre que o corpo e natureza eram uma coisa só e os movimentos das ondas era uma das inspirações de “seu balé”. Dispensa comentar quão polêmica era Isadora Duncan. Escrevia muito, fazia discursos e conferências sobre a dança que encarava como modo de vida e visão de mundo e sobre política, questões sociais, movimento feminino: “Toda mulher inteligente que leia um contrato de casamento e ainda aceite se casar merece todas as conseqüências do seu gesto”
Da infância, se lembrava particularmente de quando foi atirada de uma janela incendiada, na Califórnia, onde nasceu. Sua vida nessa época, aliás, oscilava entre o luxo e a pobreza. Seus dois filhos morreram afogados, dentro de um carro; seus amores foram conturbados, com homens por vezes desequilibrados. Nutriu, em alguns momentos, paixões homossexuais. Suscitava críticas moralistas o fato de ser mãe sem se casar e ainda se separar do homem com quem vivia. Um deles, o poeta soviético Sergei Essenin, com quem se casou formalmente, era perturbado de verdade e se suicidou algum tempo depois que romperam. Aliás, trágica também foi a própria morte de Isadora, estrangulada na própria echarpe, presa na rodas de um carro, em Nice.

Wednesday, May 03, 2006


Não sei do Roteiro de Agbara
A Bahia é um estado em que a dança é bem representada – isso para além das coreografias de axé, que não deixam de ser um bom exemplo disso. O contemporâneo não foge a essa observação. Que o diga a dedicação que a Escola de Dança da Ufba tem investido no estilo, além de outras escolas, como a própria Funceb – Fundação Cultural do Estado da Bahia, que administra o TCA. Um dos maiores expoentes da valorização dessa arte foi a criação do Balé do Teatro Castro Alves, há 25 anos, despontando como a primeira companhia de dança profissional do Norte Nordeste, e a quinta oficial do país, que oferece um grande espaço para as montagens modernas.
Os 25 anos foram comemorados com espetáculos de duas coreografias inéditas, na sala principal do TCA, nos últimos dias 28 e 29 de abril. Jogos Temporário - Para que, como até quando, de Márcia Duarte foi a primeira a ser apresentada e, talvez pelo dinamismo – usou de recursos como a presença de músicos no palco – conseguiu angariar uma maior simpatia do público que a mais monótona Agbara, de Maurício Oliveira.
Falando de monótono, toda montagem de dança contemporânea, aliás, causa estranhamento. Todas elas cansam. Não se sabe bem por qual motivo, embora o discurso sempre caia no argumento de que o problema seja a falta de “costume de percepção estética”, “educação de platéia”, ou coisa que equivalha.
Por que será que não se consegue, em geral, ter uma percepção da dança contemporânea como qualquer outra? É no mínimo engraçado isso de o público em geral, e estou falando de uma perspectiva empírica e até pessoal, se preparar para uma recepção racional quando se vai a um espetáculo de dança contemporânea. Lembro-me de ter ido acompanhada algumas vezes... A pergunta mais corrente é “o que você entendeu?”, ou ainda um certo desconforto por parte de todos de não identificar a narrativa precisa: início, meio e fim do espetáculo.
Eu não sei exatamente – fica-me então a idéia de realizar uma entrevista a coreógrafos com esse enfoque – qual seria a real intenção de determinados realizadores de montagens coreográficas, mas penso que a fruição de uma montagem dessas tem muitos outros elementos além de uma mera narrativa e, mais: penso que essas narrativas a que se propõem as danças contemporâneas não são tão lineares quanto se acredita. Dançar não é simplesmente contar uma história. Dançar é dançar. É expressar coisas que muitas vezes a própria inteligência não é capaz de decodificar em linguagem verbal, cognosciva mesmo. Caindo num certo bordão, há coisas ali que só se pode sentir.



Agbara é bem isso. O melhor da coreografia é o seu ínício. Um cenário de fundo preto, com um chão e divisórios brancos, começa com um canto de orixás, na voz de um dos dançarinos - negro, vestido de branco - enquanto um outro chega a passos definidíssimos e belos de dança afro. Concomitantemente, alguns outros bailarinos estão no palco, e dividem as atenções. Tudo acontece ao mesmo tempo, e o público decerto perderá algum detalhe como a saída de um dos dançarinos, algum movimento importante da montagem. Seguido do lamento da música negra, entra uma música eletrônica daquele jeito: repetitivo, convidativo ao transe, sobre a qual os bailarinos seguem fazendo seus movimentos simultâneos, em grupos espalhados, sempre num vai e vem através da divisória branca no palco.
Na dança contemporânea, mais do que em qualquer outra, todo mundo é meio criança, a sensação criada é onírica, todo mundo é muito bicho. O corpo é uma matéria ora muito fluida, ora quebrada em blocos, ora completamente rígida e tudo isso é de uma beleza que causa estranhamento. Na se trata do belo meramente plástico, mas de uma beleza no sentido de riqueza de detalhes.
Em Iorubá, Agbara significa “o senhor que sustenta o corpo”, traz referências a cultua ancestral africana e evidencia o dualismo desse tipo de tradição e um certo modo de vida mais contemporâneo evidenciado pela música eletrônica, pelo figurino, pelos movimentos mais cortados do bailarinos em oposição a uma certa fluidez do balé africano. Ale disso, só vejo a dança, só vejo o movimento. Não saberia escrever um roteiro de Agbara.

Wednesday, April 19, 2006



O Feminino na Dança

Hoje começa a 15ª Edição do "Feminino na Dança", um projeto do Centro Cultural São Paulo.
O evento é um espaço de apresentação para experimentadores de novas linguagens na dança e serve de vitrine para muita getne que ainda não tem tanto espaço para mostrar seu trabalho.
Fica aqui o Registro.
Para saber mais:
Essa tal
Sobre a dança comtemporânea. Cada vez com maior espaço nas salas de teatro e universidades de todo o páis – de que não se exclui a Bahia –, a dança que “Isadora Duncan” causa, entretanto, ainda um certo estranhamento. A partir do texto do coréografo e jornalista Airton Tomazzoni, o Das Dansas inaugura uma pequena série sobre a Dança Contemporânea.
Tomazzoni é gaúcho etrabalha também como pesquisador. É professor do Fundarte /Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. Assina coreografias de vários festivais e espetáculos vistos principalmente Rio Grande do Sul e eixo Rio-São Paulo, como “Nem véu, nem Grinalda” e “Recintos”. Proposta inovadora do coreógrafo é o “Baila comigo no meu esconderijo”(foto), uma experimentação na área das artes, que levou uma platéia reduzida de cerca de 10 pessoas por sessão à sua sala de apartamento para assistir ao espetáculo. O prórpio Tomazzoni bebia, fumava , com direito a aperitivos e conversas sobre o show junto com o público (ele disponibilizou os próprios telefones em sites de internet para que os interessados se inscrevessem).
“Esta tal de dança contemporânea” é um texto que trata justamente sobre o estilo de movimento mais livre do corpo e o público. A partir daí, Airton aproveita e discorre sobre algumas diretrizes gerais sobre esse “jeito de pensar a dança”. Afinal de contas, o que tentaremos trazer são informações sobre em que consiste, que tipos de expectativas estéticas demanda, quais os bailarinos e coreógrafos que se destacam no cenário nacional e munidal e em que contexto surgiu a Dança Comtemporânea.

Esta tal de dança contemporânea
Airton Tomazzoni

– Tu faz dança? Que legal! Mas que tipo de dança?
– Dança contemporânea.
O sujeito fica parado e depois de vencer o constrangimento:
– Mas o que é essa tal de dança contemporânea?
Daí o vivente, que faz dança contemporânea e sabe bem o que faz, se vê em apuros para dar uma resposta clara. Afinal, dança contemporânea não é uma técnica ou método que vem com rótulo. Então, ele arrisca:
– Sabe o Quasar Cia. de Dança? – que o vivente acha referência no país e crê ser bastante conhecida.
O sujeito permanece na mesma.
– E o Grupo Corpo? – ele lembra, já entrando em desespero. – E Deborah Colker? – ainda que não fosse o melhor exemplo que você quisesse dar.
– Ah, já vi na televisão, responde o sujeito finalmente com um brilho no olhar de quem agora pode encerrar a conversa.
E o vivente, com a certeza de que não conseguiu explicar e que melhor que explicar era sugerir que assistisse a um espetáculo.

A realidade é esta que o suposto diálogo acima ilustra. A idéia de dança contemporânea não consolidou uma referência para a maioria do público (e mesmo para a comunidade de dança), ainda mais num Estado que vê com desconfiança aquilo que não é tradição. E isso vale muitas vezes para quem produz, ou acha que produz, dança contemporânea. Basta ver a confusão em tantos festivais competitivos. O território da dança contemporânea é um vale-tudo. Passos de jazz com música experimental. Neoclássico ao som do diálogo dos bailarinos. Dança de rua com um toque de vanguarda. E a obra, nesta lógica estapafúrdia, é avaliada por especialistas de toda ordem, menos de dança contemporânea.
Esta realidade tem como origem a rara circulação de informações e o consumo de informações descontextualizadas e superficialmente elaboradas. A qualidade dessas informações é essencial e precisa ser difundida a quem pretende preparar um treinamento, criar, julgar e apreciar a dança contemporânea. Não dá para saborear morangos e reclamar de que não têm gosto de figos. Ninguém curte uma partida de futebol sem conhecer as regras do jogo. Nesse sentido, é preciso apresentar alguns fatos, ainda que de forma sintética, para que eles possam falar desta tal de dança contemporânea.
Fato 1. A dança contemporânea não é uma escola, tipo de aula ou dança específica, mas sim um jeito de pensar a dança. Forjada por múltiplos artistas no mundo, teve nas propostas da Judson Church, em Nova York, na década de 60, sua mais clara formulação de princípios. Dentre eles, o de que cada projeto coreográfico terá de forjar seu suporte técnico. E que ter um projeto é percorrer escolhas coerentes, como o fez Trisha Brown – e também, longe dali, na Alemanha, Pina Bausch, com sua dança-teatro, nos anos 70. Tal princípio implicou tanto a preservação de aulas de balé nutridas por outras técnicas e linguagens quanto o abandono do balé e a incorporação, por exemplo, de técnicas orientais. Assim, passou a se constituir uma infinidade de alternativas, como o teatro-físico do DV-8 (companhia inglesa composta só por homens, que aborda a homofobia e que recorreu ao uso de corpos que expressam força, agressividade e sexualidade, coisa que o balé não podia fornecer).
Fato 2. Não há modelo/padrão de corpo ou movimento. Portanto, a dança não precisa assombrar por peripécias virtuosas e nem partir da premissa de que há "corpos eleitos". Na dança contemporânea, a máxima repetida por pedagogos ortodoxos de que "não é tu que escolhes a dança, mas a dança que te escolhe" não tem sustentação. E, dessa forma, pode-se reconhecer a diversidade e estabelecer o diálogo com múltiplos estilos, linguagens e técnicas de treinamento.
Fato 3. Dança é dança. A dança contemporânea reafirma a especificidade da arte da dança. Dança não é teatro, nem cinema, literatura ou música. Apesar de poder ganhar muito com a cooperação dessas artes. A dança não precisa de mensagem, de história e mesmo de trilha sonora. O corpo em movimento estabelece sua própria dramaturgia, sua musicalidade, suas histórias, num outro tipo de vocabulário e sintaxe.
Fato 4. The Mind is a Muscle, proclamou Yvone Rainer quando a dança pós-moderna norte-americana abalava o estabilishment. Pensamento e corpo, tão separados na tradição ocidental, não são entendidos como lugares estranhos um ao outro. Até mesmo a ciência já traz evidências de que razão e emoção não são opostos. O pensamento se faz no corpo e o corpo que dança se faz pensamento. Isso não implica uma cerebralização fria, no caminho de uma dança conceitual, nem na biologização vazia da dança. Tal princípio não exime a qualidade técnica, nem o sabor e o prazer de dançar. Ele ressalta a complexidade que precisa ser compreendida.
Tais fatos precisam começar a ecoar, se o objetivo é saber o que é esta tal de dança contemporânea, que as pessoas insistem em dizer que fazem e que insiste em permanecer em cartaz em teatros, calçadas, estúdios. (Não foi à toa que Fato. se chamava o recente e provocante espetáculo da coreógrafa gaúcha Tatiana da Rosa.) Fatos que estão se estabelecendo em obras sensíveis e inteligentes, construídas dentro destes princípios na temporada 2005, em Porto Alegre, como In-compatível, de Eduardo Severino, ou Bu, da Meme – Centro Experimental do Movimento. A mesma qualidade está no trabalho de Nei Moraes, em Caxias do Sul, e Luciana Paludo, em Cruz Alta.
A partir desses fatos, pode-se muito (mas não se pode qualquer coisa). A liberdade trazida pela perspectiva da dança contemporânea não dispensa idéias fortes e a inventividade das grandes obras de qualquer forma artística, nem um domínio técnico (ainda que isso não caiba mais apenas nas esferas do aprendizado de passos corretos). A dança contemporânea evidencia que escolhas estéticas revelam posturas éticas. Numa época de tantas barbáries impostas ao corpo, é preciso recuperar esta ética quando se escolhe fazer arte com o corpo – seja o seu, seja (principalmente) o dos outros.
A dança contemporânea parece ter aceitado a provocação, com ecos de contemporaneidade, de Jean George Noverre. O mestre de dança, em 1760, ao falar sobre o balé e as rígidas regras da dança da época, afirmava: "Será preciso transgredi-las e delas se afastar constantemente, opondo-se sempre que deixarem de seguir exatamente os movimentos da alma, que não se limitam necessariamente a um número determinado de gestos". Num mundo de tantas conquistas e descobertas sobre nós, seres humanos, seria no mínimo redutor ficar tratando a dança como apenas uma repetição mecânica de passos bem executados. Fazer tais passos, na música, ursos, cavalos e poodles também fazem. Creio que o ser humano pode ir mais longe que isso. Talvez este seja o incômodo proposto por esta tal de dança contemporânea. O de que podemos ser mais e muitos.
Foto: Espetáculo Fato. /Gabriel Schmidt/Divulgação


Wednesday, April 12, 2006




Flamenco no Pé
Uma trilogia especial de filmes de dança, dirigida por Carlos Saura e a parceria com um dos maiores nomes do flamenco no mundo, Antônio Gades. É em referência a esses dados de... currículo (?) Que Cristina Hoyos é conhecida em todo o mundo. Antes de conhecer Gades, porém, a bailaora já dançava no Balé de Manuela Vargas, pelo qual, viajou internacionalmente, por países como os Estados Unidos. Antes ainda de tudo isso, Cristina Hoyos nasceu: na Andaluzia, o berço do próprio flamenco. Depois de 85 anos, ela está no Brasil. Sem o mesmo rigor físico, talvez? Mas o que importa? A técnica dela é quase que naturalizada e a expressão cada vez mais autêntica, visceral, embora mais lívida menos tensa.Sua marca registrada é o movimento dos braços.
Hoyos não veio para a terra sozinha. Desde 2005 ela dirige a Compañia Andaluza de Danzas, em Sevilla, fundada por Mário Maya. A mesma companhia, coreografada pela bailaora andaluza, deve voltar à América Latina no final do ano, como representante da Andaluzia na XX Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México.
Tudo bem, não vamos aqui nos associar ao discurso de que quem nasce em Andaluzia tem Flamenco nas veias, assim como o de que quem nasce no Brasil, no Rio, na Bahia, ou o que for, tem samba no pé. Mas o fato é que a cultura andaluza é mesmo repleta das referências flamencas. As festas, as escolas, o cotidiano das ruas. E tradição é uma coisa da qual nem sempre é fácil de desligar. A origem do flamenco é ainda muito controversa, e difícil de ser apurada porque até pouco tempo era passada como tradição oral, as músicas não eram sequer escritas em partituras. Mas o fato é que de uma mistura não bem definida de povos como os islâmicos, hebraicos e ciganos que por um motivo histórico ou outro viveram nas distintas comarcas de Andaluzia, surgiram o cante, a guitarra e o baile flamenco.


Depois de muitos “tarantos”, “soleares”, “tangos”, “fandangos” e todos os outros palos (ritmos) flamencos como primeira bailarina da Companhia de Antônio Gades durante 20 anos, Hoyos fundou, em 89, sua própria compañia. Depois que parou de dançar, começou se dedicar ao trabalho de criação. Nas coreografias de Hoyos, a raiz do flamenco se mistura com tendências contemporâneas. Até Alejandro Sanz entra no samba, quero dizer, na bulleria, como bem relacionaria a bailaora brasileira Yara Castro. Lá pela Espanha, pelo menos, o público jovem agradece.
Gedes e Hoyos: